
Atento à importância da inteligência artificial na educação, o Instituto Jama, em parceria com a Codifica, está levando o tema para as escolas públicas participantes do projeto Fluência Digital. A proposta vai além do uso de ferramentas: estudantes e professores aprendem como a IA funciona e como utilizar a tecnologia com segurança, senso crítico e intencionalidade pedagógica.
A iniciativa responde a uma realidade que já está nas salas de aula. Segundo a pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br, 70% dos alunos do Ensino Médio usam plataformas de IA generativa para fazer pesquisas escolares. O PISA 2025, avaliação internacional da OCDE com estudantes de 15 anos, confirma o cenário: 48% dos jovens brasileiros usam chatbots de IA para estudar pelo menos uma vez por semana, índice próximo da média dos países da OCDE (46%). Entre os estudantes brasileiros, 40% recorrem à IA para pesquisar temas novos, 31% para resumir textos e 27% para escrever redações inteiras. Os dados mostram que o desafio não é mais decidir se a IA entra na escola, mas garantir que a tecnologia seja usada com orientação pedagógica.
A primeira etapa do projeto foi uma formação docente sobre o uso de ferramentas de IA a partir dos critérios de segurança definidos pelos principais documentos brasileiros sobre o tema, ambos do Ministério da Educação: o Referencial para o Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação e o documento orientador Inteligência Artificial na Educação Básica. A formação reuniu 130 professores de 35 escolas, que atendem cerca de 9 mil alunos.
O encontro também abordou a nova classificação indicativa do Ministério da Justiça, que desde 2025 considera o nível de interatividade de aplicativos e ferramentas de IA. Pelas novas regras, assistentes de IA com respostas simples e supervisionadas são indicados a partir dos 6 anos; aplicativos de IA com conteúdo educacional estruturado, a partir dos 10 anos; e chatbots de uso amplo, como ChatGPT e Gemini, a partir dos 14 anos. Por isso, no Fluência Digital, o contato das crianças com as ferramentas de IA acontece sempre com a mediação do professor.
Um dos principais objetivos da formação foi destacar a diferença entre ensinar com IA e ensinar sobre IA. No primeiro caso, a tecnologia apoia o trabalho pedagógico. No segundo, a IA se torna objeto de estudo: os estudantes aprendem como esses sistemas funcionam, quais são seus limites, que impactos sociais e ambientais podem causar e por que dependem de decisões humanas.
O que dizem as pesquisas
Mas o que a ciência já sabe sobre o efeito da IA na aprendizagem? O professor Amilton Martins, PhD em Educação, reuniu as respostas em uma análise publicada no LinkedIn, a partir de uma compilação de mais de 30 estudos publicados entre 2023 e 2026, organizada pelo pesquisador Alberto Romero, do The Algorithmic Bridge. A compilação reúne trabalhos de instituições como MIT, Wharton, Harvard, Stanford, Microsoft, OpenAI e Google DeepMind, com métodos que incluem exames cerebrais, ensaios randomizados e estudos longitudinais. O achado central: a IA melhora de forma consistente a qualidade e a velocidade das entregas, mas, com a mesma consistência, enfraquece os processos que formam conhecimento duradouro e raciocínio independente.
Em um dos estudos, realizado no MIT, 54 estudantes escreveram redações com e sem a ajuda do ChatGPT enquanto tinham a atividade cerebral monitorada por eletroencefalograma. Quem escreveu com a ferramenta apresentou conectividade cerebral até 55% menor do que quem escreveu sem ajuda, fenômeno que os pesquisadores chamaram de “dívida cognitiva”.
As pesquisas também mostram o outro lado. Em Harvard, um tutor de IA desenhado para fazer perguntas, e não para dar respostas, superou a aprendizagem ativa tradicional. Na Nigéria, um programa piloto do Banco Mundial levou estudantes do ensino médio a usar a IA como tutora em aulas de inglês no contraturno, com orientação de professores. Em apenas seis semanas, o avanço na aprendizagem foi equivalente ao que se espera de 1,5 a 2 anos de escola regular.
A variável decisiva, portanto, não parece ser a tecnologia, mas o desenho de sua implementação: quando a IA pensa pelo estudante, o estudante deixa de pensar. Por isso, o Fluência Digital aposta no uso intencional e mediado, em que crianças e professores conduzem a ferramenta, em vez de serem conduzidos pela tecnologia.
Da formação à sala de aula
Para levar essa perspectiva às turmas, os professores das escolas participantes, em Porto Alegre, Esteio, Eldorado do Sul e Guaíba, conheceram a trilha “How AI Makes Decisions” (“Como a IA toma decisões”), da organização norte-americana Code.org, gratuita e aberta ao público. A trilha mostra que a IA funciona como um sistema de predição, que precisa ser treinado por pessoas, e permite experimentar esse treinamento por meio do reconhecimento de padrões.
A Codifica é a única empresa brasileira no Global Leaders Program da Code.org, iniciativa que, em 2026, selecionou 14 organizações no mundo para levar o ensino de computação e de inteligência artificial às salas de aula em larga escala e testar os novos cursos de IA da plataforma.
Agora, no último trimestre do ano letivo, o projeto chega às crianças. A Codifica criou, com apoio de IA, 14 jogos em HTML especialmente para o Fluência Digital, sobre cultura e cidadania digital, com temas como boatos, golpes virtuais, cyberbullying, privacidade e ECA Digital. Na fase atual, de testagem, professores e crianças jogam, avaliam os jogos e compartilham suas impressões. Na etapa seguinte, as turmas são convidadas a planejar de forma desplugada, sem o uso de computadores, o jogo que gostariam de construir, definindo tema, dinâmica, personagens e história, e a estruturar um prompt com essas informações. A etapa final é testar a criação do jogo com uma ferramenta de IA, sempre com a mediação do professor.
A proposta articula pensamento computacional, trabalho colaborativo e leitura crítica da tecnologia. Em vez de apenas consumir o que a IA produz, as crianças passam a entender como os sistemas operam e a decidir o que querem criar com a ferramenta. Os jogos da fase de testagem estão abertos ao público em codifica-edu.github.io/jogos.
Impacto do programa
A parceria entre o Instituto Jama e a Codifica, vinculada ao eixo de Tecnologias e Inovação do Instituto, começou em 2025, levando Cidadania Digital e Pensamento Computacional a estudantes das redes públicas de Porto Alegre, Esteio e Eldorado do Sul. No primeiro ano, o projeto envolveu 50 professores, com mais de 120 horas de formação, e aplicou Testes de Fluência Digital para acompanhar o avanço dos participantes e orientar decisões pedagógicas com base em evidências.
Em 2026, a iniciativa amplia o alcance e acrescenta cerca de 10 mil beneficiados ao eixo de Tecnologias e Inovação. Além dos estudantes das escolas públicas de Porto Alegre, Esteio, Eldorado do Sul e Guaíba, o Fluência Digital chega a quatro organizações sociais parceiras: Rede Calábria, Santa Zita de Lucca, WimBelemDon e Aldeia Lumiar. Só nas unidades da Rede Calábria, em Porto Alegre, participam 32 turmas e 730 crianças. Desde 2019, quando foi criado, o eixo de Tecnologias e Inovação do Instituto Jama já beneficiou diretamente 42 mil alunos.