Entrevista com Claudia Costin
“A educação só cumpre seu papel quando consegue garantir que cada estudante aprenda, respeitando suas diferenças e ampliando suas possibilidades de futuro.”
Entrevistamos Claudia Costin por ocasião da quinta edição do South Summit Brazil, que aconteceu no final do mês de março, em Porto Alegre.
Reconhecida como uma das principais referências em políticas públicas educacionais no Brasil, Claudia Costin é presidente do Instituto Salto e possui uma trajetória marcada pela atuação em governos, organismos internacionais e instituições acadêmicas, sempre com foco na melhoria da qualidade da educação.
Ao longo da conversa, abordamos temas centrais para o presente e o futuro da educação no país, como o papel da educação infantil na redução das desigualdades, os desafios da alfabetização, o impacto das tecnologias na infância e adolescência, os desafios da educação no Rio Grande do Sul e a importância da gestão escolar.
Paula Jung:1) Claudia, a educação infantil tem ganhado cada vez mais espaço no debate público e nas políticas educacionais. No Instituto Jama, temos acompanhado de perto esse movimento, inclusive a partir de iniciativas voltadas à educação infantil em locais de maior vulnerabilidade. Como você vê o papel dessa etapa da educação nesses contextos?
Claudia Costin:
A educação infantil é uma das etapas mais decisivas da formação humana, embora ainda seja subestimada por muitas famílias e até por políticas públicas.
É nesse período que se constroem bases fundamentais: não apenas cognitivas, mas também emocionais, sociais e até éticas. A criança pequena está formando sua relação com o mundo, com o aprender, com o outro e consigo mesma.
Quando falamos de contextos de maior vulnerabilidade, esse papel se torna ainda mais crucial. A escola de educação infantil pode e deve atuar como um espaço de redução das desigualdades de origem socioeconômica.
Isso exige uma mudança de mentalidade importante: a escola não pode tratar todos de forma igual, porque as crianças não partem do mesmo lugar.
Aquilo que uma família com mais recursos oferece naturalmente — estímulos de linguagem, repertório cultural, organização de rotina, acesso a livros — muitas vezes precisa ser garantido pela escola em outros contextos.
Por isso, falamos em equidade: dar mais a quem precisa mais, para que todos tenham condições reais de aprender e se desenvolver.
Paula Jung: 2) E como equilibrar isso sem reforçar desigualdades ou preconceitos?
Claudia Costin:
Esse é um dos maiores desafios e, também, um dos temas menos discutidos na educação.
O professor precisa ser muito bem preparado para atuar nesse campo com sensibilidade, consciência e respeito. Não se trata de expor a criança ou evidenciar suas fragilidades, mas de compreender suas necessidades e atuar a partir delas.
Existe um certo desconforto em falar sobre diferenças, como se reconhecer desigualdades fosse, por si só, algo inadequado. Mas ignorá-las é, na prática, perpetuá-las.
Equidade não é tratar todos da mesma forma: É garantir que cada criança receba o que precisa para aprender. E isso exige formação docente de qualidade, não apenas teórica, mas também prática, para que o professor saiba agir sem constranger, sem rotular e sem reforçar estigmas.
Paula Jung: 3)Você mencionou também a importância da intencionalidade pedagógica. Como isso se aplica na educação infantil?
Claudia Costin:
Existe hoje uma tendência de romantizar a educação infantil como um espaço exclusivamente de livre brincar. O brincar é, sem dúvida essencial, é a linguagem da criança, é forma de expressão e de construção de sentido. Mas a escola não pode se limitar a isso.
A escola precisa ter intencionalidade pedagógica clara: saber o que quer desenvolver em cada etapa, quais habilidades quer estimular, que experiências quer proporcionar.
Isso inclui, por exemplo: desenvolvimento da linguagem, noções matemáticas iniciais, habilidades socioemocionais e curiosidade investigativa. E tudo isso pode, e deve acontecer, de forma integrada ao brincar.
Já vi experiências muito potentes nesse sentido. Em uma creche na Colômbia, por exemplo, crianças de dois a três anos participavam de pequenas assembleias para decidir o que queriam aprender na semana seguinte. A partir disso, os professores preparavam materiais e atividades conectadas ao currículo.
Isso mostra que é possível unir escuta da criança, ludicidade e intencionalidade pedagógica.
Paula Jung: 4)E sobre alfabetização na pré-escola, ainda existe muita resistência?
Claudia Costin:
Sim, existe uma resistência grande, muitas vezes baseada em uma falsa oposição entre alfabetização e infância.
A criança pequena tem uma enorme capacidade de aprender e uma curiosidade natural. Introduzir elementos da linguagem escrita, como sons das letras, reconhecimento de palavras e função social da leitura, não significa antecipar conteúdos de forma inadequada, mas sim aproveitar essa janela de desenvolvimento.
Em muitos países com bons sistemas educacionais, isso já acontece de forma estruturada e respeitosa.
O problema não é ensinar, mas sim como ensinar.Quando feito de maneira lúdica, contextualizada e sensível, esse processo enriquece a experiência da criança, sem comprometer o brincar.
Paula Jung: 5) Quanto ao efeito do uso da tecnologia, especialmente na interação com as crianças, como você avalia?
Claudia Costin:
Esse é um dos temas mais desafiadores da educação contemporânea.
No caso das crianças pequenas, especialmente na primeira infância, as evidências são bastante consistentes ao mostrar que o uso excessivo de telas tende mais a prejudicar do que a contribuir para o desenvolvimento.
Estamos falando de uma fase em que funções fundamentais como atenção, linguagem, vínculo e autorregulação ainda estão em formação. A exposição precoce e prolongada a telas pode impactar diretamente esses processos.
Por isso, o ideal é que o uso seja mínimo ou até evitado nos primeiros anos de vida. Quando presente, precisa ser sempre mediado por um adulto e com alguma intencionalidade — nunca como substituto da interação, do brincar ou do convívio.
O problema é que, na prática, muitas vezes as telas acabam assumindo o papel de uma espécie de “babá eletrônica”, o que pode facilitar a rotina dos adultos, mas traz consequências importantes para o desenvolvimento da criança.
Paula Jung: 6) Entre adolescentes, o cenário parece ainda mais complexo…
Claudia Costin:
Sem dúvida. Entre adolescentes, o uso de celulares e redes sociais já se tornou uma questão de saúde pública.
Estamos lidando com: dependência digital, privação de sono, queda de atenção, exposição a conteúdos inadequados e aumento de ansiedade e sofrimento psíquico. Muitos professores relatam que os alunos chegam à escola cansados, com dificuldade de foco, justamente por passarem longos períodos conectados, e muitas vezes durante a noite.
Além disso, há o caráter altamente viciante dessas plataformas. Mesmo para adultos já é difícil regular o uso. Para crianças e adolescentes, esse desafio é ainda maior, porque eles ainda não têm completamente desenvolvidas as funções executivas cerebrais responsáveis pela autorregulação.
Ou seja, não se trata de falta de disciplina, mas de um estágio de desenvolvimento em que essa regulação ainda está em construção. Além disso, há riscos concretos, como cyberbullying, assédio e acesso a conteúdos violentos ou impróprios.
Por isso, políticas que regulam o uso de celulares nas escolas (quando bem implementadas) têm mostrado resultados positivos, inclusive no desempenho acadêmico.
Mas é importante lembrar: a escola sozinha não resolve. A família tem um papel essencial, especialmente na criação de limites e no exemplo cotidiano.
Sempre bom destacar que a tecnologia faz parte da nossa vida e não será retirada dela. O desafio não é eliminar, mas usar com consciência e intencionalidade.
Especialmente na educação, ela pode ser uma aliada importante, inclusive para professores, na criação de materiais e estratégias pedagógicas. Mas, no caso das crianças e adolescentes, é fundamental reconhecer limites e proteger o desenvolvimento.
Paula Jung: 7) Pensando nesses desafios contemporâneos , especialmente no uso da tecnologia e seus impactos, e trazendo esse olhar para a nossa realidade, como você analisa hoje a educação no Rio Grande do Sul?
Claudia Costin:
O Rio Grande do Sul teve alguns avanços recentes, mas ainda enfrenta desafios estruturais importantes.
Os resultados mais recentes mostram uma melhora, especialmente após períodos difíceis como as enchentes e pandemia, mas o estado ainda está em um patamar abaixo do desejável — especialmente quando olhamos para a alfabetização.
E isso fica ainda mais evidente quando comparamos com outros estados, como o Piauí, que, mesmo sendo um dos mais pobres do país, alcançou índices significativamente mais altos de crianças alfabetizadas no tempo adequado.
Isso mostra que não se trata apenas de recursos, mas de escolhas de política pública, de uso de evidências e de continuidade nas ações.
Além disso, o estado precisa avançar em aspectos fundamentais, como a ampliação da educação em tempo integral, algo presente em praticamente todos os países com bons sistemas educacionais.
Há também um histórico de polarização no Rio Grande do Sul que, em certa medida, impacta a construção de políticas mais consistentes e duradouras. Na educação, isso pode levar a descontinuidades, disputas de narrativa e menor foco no que realmente importa: a aprendizagem dos alunos.
Os estados que têm apresentado melhores resultados não necessariamente seguem uma mesma linha ideológica, mas têm algo em comum: olham para a educação como política pública.
Talvez esse seja um dos principais aprendizados: a educação precisa deixar de ser um espaço de disputa e passar a ser um compromisso coletivo com o futuro.
Outro ponto relevante é a necessidade de fortalecer o regime de colaboração entre estado e municípios, especialmente na alfabetização, que é majoritariamente responsabilidade das redes municipais. Sem essa articulação, os avanços tendem a ser mais lentos e desiguais.
Por outro lado, é importante reconhecer que há iniciativas positivas e movimentos de mudança em curso. O desafio agora é ganhar escala, consistência e velocidade.
Paula Jung: 8) Claudia, ao longo da sua fala, aparece também a importância de um envolvimento mais amplo com a educação, não apenas das escolas, mas da sociedade como um todo. Qual é o papel da sociedade civil e da mídia nesse processo?
Claudia Costin:
A educação não avança de forma consistente apenas com políticas públicas isoladas. Ela exige continuidade, acompanhamento e um engajamento mais amplo da sociedade.
Quando falamos, por exemplo, da melhoria da alfabetização ou da implementação de mudanças estruturais, isso não depende apenas do governo. Depende também de uma sociedade civil ativa, que acompanhe, cobre e ajude a sustentar essas agendas ao longo do tempo.
Um dos grandes desafios é justamente a descontinuidade. A cada mudança de gestão, muitas vezes há mudanças de direção, e isso compromete avanços que exigem tempo e consistência.
Por isso, é fundamental fortalecer o que podemos chamar de um certo “controle cidadão” — um acompanhamento mais próximo das políticas públicas, para que elas não se percam ao longo do caminho.
Nesse processo, a mídia também tem um papel muito importante. Ao dar visibilidade a dados, evidências e boas práticas, ela contribui para qualificar o debate público e ampliar o nível de consciência da sociedade sobre os desafios e caminhos da educação.
Além disso, é importante evitar o que podemos chamar de “narrativas paralisantes” — a ideia de que nada funciona ou de que não é possível avançar. Existem experiências que deram certo, e é preciso olhar para elas com seriedade.
A educação precisa ser tratada como um compromisso coletivo, que ultrapassa governos e ideologias. Sem esse engajamento mais amplo, os avanços tendem a ser mais lentos e menos consistentes.
Paula Jung: 9) Para fechar, qual ponto-chave que ainda precisa avançar na educação?
Claudia Costin:
Um ponto central, muitas vezes negligenciado, é o papel do diretor escolar.
Em muitos contextos, o diretor ainda é visto principalmente como um gestor administrativo, responsável por tarefas burocráticas e operacionais. Mas essa é uma visão limitada frente ao potencial transformador dessa função.
O diretor deve ser o líder pedagógico da escola — alguém profundamente comprometido com a aprendizagem de cada aluno e com o desenvolvimento contínuo de sua equipe.
Isso implica assumir um papel ativo em diferentes frentes:
- acompanhar de perto o trabalho dos professores;
- promover espaços estruturados de formação continuada;
- incentivar o planejamento coletivo;
- observar práticas em sala de aula e oferecer devolutivas qualificadas e
- identificar dificuldades e apoiar o desenvolvimento profissional da equipe
Além disso, o diretor precisa garantir que haja foco real na aprendizagem — não apenas no cumprimento de conteúdos ou rotinas. É relativamente comum, em sistemas educacionais, que se considere que “dar aula” é suficiente. Mas o verdadeiro papel da escola é assegurar que os alunos estejam, de fato, aprendendo. E isso exige intencionalidade, acompanhamento e responsabilidade compartilhada.
Outro ponto importante é que o diretor também precisa cuidar do clima escolar e da saúde emocional dos professores, sem, no entanto, tratá-los como vítimas ou “coitadinhos”. Professores são profissionais que escolheram essa carreira e precisam ser valorizados, apoiados e também desafiados a desenvolver seu potencial.
Nesse sentido, a escola deve ser entendida como um espaço em que todos aprendem: alunos, professores e gestores.
O trabalho desenvolvido pelo Instituto Salto em parceria com o Instituto Jama vai justamente nessa direção, ao fortalecer a gestão escolar e apoiar diretores na construção de uma liderança mais estratégica e orientada à aprendizagem. A escola não pode se limitar a oferecer ensino: precisa garantir aprendizagem.
E isso só acontece quando há liderança comprometida, visão clara, formação contínua e trabalho coletivo.
